segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Aguapé

(Belchior / Raimundo Fagner ( epigrafe ) Castro Alves)


Capineiro de meu pai
não me cortes meus cabelos.
Minha mãe me penteou;
minha madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira
... que o passarim beslicou.

"Caminheiro que passas pela estrada,
seguindo pelo rumo do sertão
quando vires a cruz abandonada,
deixa-a em paz dormir na solidão".

"Que vale o ramo do alecrim cheiroso
que lhe atiras nos seios ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
das borboletas, que, lá vão pousar".

Esta casa não tem lá fora;
a casa não tem lá dentro
três cadeiras de madeiras,
uma sala, a mesa ao centro.

Rio aberto, barco solto,
pau-d'arco florindo à porta,
sob o qual, ainda há pouco,
eu enterrei a filha morta.

sob o qual, ainda há pouco,

eu enterrei a filha morta.

Aqui os mortos são bons,

pois não atrapalham em nada;

pois não comem o pão dos vivos,
nem ocupam lugar na estrada...

"pois não comem o pão dos vivos,

nem ocupam lugar na estrada.

Nada,
Nada, nada.
Nada, nada, nada.
Aqui não acontece nada, não.
Nada.
Nada, nada, nada.
Absolutamente nada....
E o aguapé, lá na lagoa,
sobre a água nada
e deixa a borda da canoa
perfumada.
É a chaminé à toa
de uma fábrica montada
sob a água que fabrica
este ar puro da alvorada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário