segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Aguapé

(Belchior / Raimundo Fagner ( epigrafe ) Castro Alves)


Capineiro de meu pai
não me cortes meus cabelos.
Minha mãe me penteou;
minha madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira
... que o passarim beslicou.

"Caminheiro que passas pela estrada,
seguindo pelo rumo do sertão
quando vires a cruz abandonada,
deixa-a em paz dormir na solidão".

"Que vale o ramo do alecrim cheiroso
que lhe atiras nos seios ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
das borboletas, que, lá vão pousar".

Esta casa não tem lá fora;
a casa não tem lá dentro
três cadeiras de madeiras,
uma sala, a mesa ao centro.

Rio aberto, barco solto,
pau-d'arco florindo à porta,
sob o qual, ainda há pouco,
eu enterrei a filha morta.

sob o qual, ainda há pouco,

eu enterrei a filha morta.

Aqui os mortos são bons,

pois não atrapalham em nada;

pois não comem o pão dos vivos,
nem ocupam lugar na estrada...

"pois não comem o pão dos vivos,

nem ocupam lugar na estrada.

Nada,
Nada, nada.
Nada, nada, nada.
Aqui não acontece nada, não.
Nada.
Nada, nada, nada.
Absolutamente nada....
E o aguapé, lá na lagoa,
sobre a água nada
e deixa a borda da canoa
perfumada.
É a chaminé à toa
de uma fábrica montada
sob a água que fabrica
este ar puro da alvorada.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012


São Paulo, fim do dia

José Domingos

São Paulo, fim do dia:
... Portas que se fecham
Luzes que se acendem
Mãos que se despedem
Olhares que prometem
Coisas que acontecem
Porque tem que acontecer

Gente buscando casa
Gente buscando gente
Gente buscando nada
Vejo cinco continentes
Pisando a mesma calçada
O aglomerado constante
Dessa massa que se agita
Faz ainda mais bonita minha cidade gigante

São Paulo dos doutores
São Paulo dos marginais
São Paulo dos feirantes
dos intelectuais
São Paulo das mariposas
São Paulo do operário
do camelô
do vagabundo
do society
da favela
Misturas que fazem dela
A maior terra do Mundo

São Paulo, fim do dia:
e a rotina continua
Gente empurrando gente
a cada palmo de rua
Aqui uma cotovelada
Mais adiante é um empurrão
Uma mulher desesperada gritando:
"Pega ladrão!"
É o farol que não abre
É a sinfonia das buzinas
É o jornaleiro que grita:
"Olha a manchete do dia
Sequestraram uma menina!"

Mais adiante uma fechada:
Alguem entrou na contra-mão
E sempre que isso acontece
Pode esperar que não passa
A gente assiste de graça
o festival do palavrão
Mas essa é a hora feliz
Do regresso para o lar
Cada um mais apressado
No desejo de chegar à mansão
ao apartamento, à casinha na viela
ao barraco de zinco
pendurado na favela
O pensamento é um só:
"Chegar, chegar"

Os contrastes são berrantes
na multidão dos sozinhos:
Quem não viu nao acredita
Chega até ser bonita
a demanda dos caminhos
Enquando um vai de subúrbio
Da cenrtal, da cantareira
e faz a viajem inteira
mal podendo respirar,
O outro, carro importado
A bela gata do lado
O ar condicionado
Som, champagne, caviar
Gente que vai de gálata,
de Dart, opala, corcel,
de fusca, pé-de-cabra,
lambreta, bicicleta...

Cada um vai do jeito que pode:
Gente que vai de taxi,
onibus, lotação
Gente que vai à pé
batendo sola no chão
Não que se tenha vontade
Coisas da necessidade
De que ficou sem nenhum
Nem mesmo pra condução
Mas nada disso importa
O importante é chegar
Quando se tem na chegada
um motivo pra sorrir
Triste é andar por andar
Ver tanta gente passar
E ter que continuar
Sem ter pra onde ir...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Matança

Xangai

Cipó caboclo tá subindo na virola
Chegou a hora do pinheiro balançar
Sentir o cheiro do mato da imburana
Descansar morrer de sono na sombra da barriguda
De nada vale tanto esforço do meu canto
Pra nosso espanto tanta mata haja vão matar
Tal mata Atlântica e a próxima Amazônica
Arvoredos seculares impossível replantar
Que triste sina teve cedro nosso primo
Desde de menino que eu nem gosto de falar
Depois de tanto sofrimento seu destino
Virou tamborete mesa cadeira balcão de bar
Quem por acaso ouviu falar da sucupira
Parece até mentira que o jacarandá
Antes de virar poltrona porta armário
Mora no dicionário vida eterna milenar
Quem hoje é vivo corre perigo
E os inimigos do verde da sombra, o ar
Que se respira e a clorofila
Das matas virgens destruídas vão lembrar
Que quando chegar a hora
É certo que não demora
Não chame Nossa Senhora
Só quem pode nos salvar é
Caviúna, cerejeira, baraúna
Imbuia, pau-d'arco, solva
Juazeiro e jatobá
Gonçalo-alves, paraíba, itaúba
Louro, ipê, paracaúba
Peroba, massaranduba
Carvalho, mogno, canela, imbuzeiro
Catuaba, janaúba, aroeira, araribá
Pau-fero, anjico amargoso, gameleira
Andiroba, copaíba, pau-brasil, jequitibá